terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Pena Branca


Uma nota triste. Na noite desta segunda-feira faleceu o cantor José Ramiro Sobrinho, de 70 anos, mais conhecido como Pena Branca, acometido de infarto. Ao lado do irmão, Xavantinho (Ranulfo Ramiro da Silva), formou uma das melhores duplas caipiras (ou sertaneja, como querem alguns) das últimas décadas. Xavantinho partiu fora do combinado em 1999. Pena Branca seguiu carreira solo e chegou a ganhar um Grammy Latino.
Pena Branca e Xavantinho chegaram em São Paulo em 1968 para tentar a carreira artística. Gravaram o primeiro compacto (disco de vinil que tinha apenas uma música gravada de cada lado), Saudade. Somente em 1980 lançaram o primeiro LP (Long Play, o bolachão), Velha Morada. Depois vieram Uma dupla brasileira, de 1982; Cio da Terra, de 1987, com a participação de Milton Nascimento; Canto Violeiro, de 1988; Cantadô do mundo afora, de 1990 – ganhador do Prêmio Sharp com a música Casa de Barro –; Renato Teixeira & Pena Branca e Xavantinho ao vivo em Tatuí, de 1992; Viola e Canção, de 1993; Ribeirão encheu, de 1995; Pingo d'água, de 1996, e Coração Matuto, de 1999. Na minha opinião, Viola e cancões é imperdível, assim como o disco que gravaram com Renato Teixeira.
Pena Branca lançou três discos depois da morte do irmão: Semente Caipira (2000), Pena Branca canta Xavantinho (2002) e Cantar Caipira (2008).
A música brasileira ficou órfã de um grande interprete da canção popular.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Odisséias


Conta o poema épico a Odisséia que o herói grego Odisseu (ou Ulisses, pela mitologia romana) levou dez anos para voltar para casa, em Ítaca, depois da queda de Tróia. O herói, que criou o famosos Cavalo de Tróia, enfrentou tempestades, ciclopes, as sereias.
Ontem, quarta-feira, senti-me um pouco Odisseu tentando voltar para casa. Primeiro, com as ruas centrais travadas, tentei embarcar no metrô – estação República. Os ciclopes não deixaram. Cai no canto das sereias e fui para a avenida São João pegar um ônibus. Uma hora se passou e nada do coletivo. Deve ter sido engolido por Poseidon nos mares em que se transformava São Paulo. Passada uma hora, cri que o metrô estava livre. Acho que de novo as sereias sussurraram em meus ouvidos. Já dava para entrar na estação, mas as plataformas estavam apinhadas. Os trens, nem se diga. Não dava para arriscar.
O jeito foi voltar para o trabalho e esperar Poseidon se acalmar e Odisseu atracar num cais de um mar menos revolto. Minha Odisséia não levou dez anos, mas três horas e meia para fazer o mesmo percurso que em dias, digamos, normais, não gasto mais do que 55, 60 minutos.
É certo que a natureza tem castigado São Paulo – há mais de 40 dias as chuvas não cessam. Mas não são só elas as culpadas pelas mazelas que a região metropolitana está enfrentando. Em entrevista ao Portal Terra, o geógrafo Aziz Ab'Saber, professor emérito da USP e um dos principais nomes da área em atividade no país, afirma:
“Agora, não adianta o governador dizer: 'foi a chuva que ocasionou isso'. Ele tem que saber que há um período que vem desde dezembro de 2009 e atravessou o mês inteiro de janeiro de 2010 e só vai terminar depois dos meados de março.” Ou seja, ninguém tomou nenhuma providência.
Na nossa cultura política, o grande administrador é aquele que “faz”; aquele que abre largas avenidas, constrói pontes, túneis, embeleza a cidade. Muitas vezes para dizer que fez obras. A maioria deixa de fazer as coisas mais simples, porém essenciais, como a limpeza de córregos, de bueiros, recolher o lixo etc.
Em Osasco, por exemplo, Francisco Rossi fora considerado “um bom prefeito”, porque remodelou as praças públicas e construiu um imenso viaduto metálico sobre uma rotatória. Obras que também são necessárias, não fosse à época a cidade, então com quase 600 mil habitantes, contar com apenas um hospital público – gerido pelo Estado – e o principal pronto-socorro sofrer com a falta de medicamentos, inclusive de esparadrapos. O prédio, antigo, tinha goteiras (goteiras é maneira de se falar, pois praticamente chovia no corredores do PS).
As cidades metropolitanas cresceram desordenadamente por décadas. Na verdade incharam. A irresponsabilidade sempre foi muito grande. As ocupações de terrenos, públicos ou privados, sempre foram incentivadas por políticos, candidatos a vereador, prefeito, deputado. Fruto da falta de uma política séria de habitação.
Sem uma política de financiamento para a população de baixa renda construir ou comprar imóvel, a população acabou tomando áreas de manancial,áreas de várzea, encostas de morro sem qualquer infra-estrutura. Os desastres são iminentes.
Enquanto o metrô entra em colapso, pelas estações há cartazes espalhados falando sobre a “expansão” das linhas... para 2010, 2012, 2014. É a cara do nosso governador, o vampiro paulista!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Gênesis


E no quinto dia
disse Deus: façamos
o homem à nossa
imagem!
“E criou Deus o homem à sua imagem:
à imagem de Deus criou; homem e
mulher os criou.”
E disse Deus: frutificai e multiplicai-vos.
No sexto, Ele descansou.

No sétimo dia, aproveitando-se
da distração de Deus, o homem começou
a danar-se na fornicação e a povoar a Terra.
Descobriu o fogo, as primeiras ferramentas,
as primeiras armas. E começou a queimar florestas;
a derrubar árvores, a matar animais.

E milhões de anos se passaram até
Darwin teorizar sobre a
evolução das espécies.
E o homem se fez Deus!
Nietzsche matou Deus,
e Deus matou Nietzche.
E o homem subiu às estrelas, e construiu
máquinas, e achou-se dono de tudo!

E como dono de tudo
achou-se no direito de destruir o mundo.
E Deus fechou os olhos e chorou.

Luís Brandino, 3 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Benedetti de novo


Esqueci de dizer que Mario Benedetti faleceu em maio de 2009. Uma grande perda para a literatura mundial. Quem quiser conhecê-lo melhor, no Brasil a Alfaguarra – selo da Editora Objetiva – tem três obras editadas: Correio do Tempo; Primavera num Espelho Mágico e A Trégua. A gaúcha LP&M também editou A Trégua e Gracias por El Cigarro – ambas as obras em formato de livro de bolso. Eu particularmente não gosto muito das edições de bolso da LP&M, pois as acho desleixadas. Tenho um livro do Eduardo Galeano (por coincidência outro uruguaio), Futebol ao Sol e à Sombra, lotado de erros (a maioria de composição gráfica, imperdoável).

Benedetti


Aos meus dois ou três leitores devo satisfações. Praticamente abandonei o blog nas últimas semanas. Janeiro não tem sido muito fácil aqui no trampo. Em casa, cansado, tenho tido pouca inspiração – ou transpiração, porque o ato de escrever exige 10% de inspiração e o restante de transpiração. Bem, mas deixemos de delongas.
O Brasil, talvez por não falar o espanhol, língua predominante no Continente, conhece muito pouco a cultura de nossos vizinhos. Na música, por exemplo, conhecemos Mercedes Sosa, Fito Paes... Na literatura, então, só mesmo os iniciados. Algumas exceções, porque premiados na Europa, são Gabriel Garcia Marquez, Vargas Llosa, Isabel Allende, Pablo Neruda.
Hoje de manhã ouvi Jorge Drexler, cantor e compositor uruguaio, que ficou famoso por ganhar o Oscar com a música tema do filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles. A canção me remeteu a outro uruguaio talentoso, o escritor, poeta e ensaísta Mario Benedetti, autor de mais de 80 livros – só conheço uma de suas obras, a novela A Trégua, que vale a pena ser lida. Por isto resolvi presenteá-los com um poema dele:

A ponte

Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte
na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país
trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar
venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra
nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco
eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções
na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Tirando o Brasil da gaveta


Andy Warhol, o famoso artista plástico norte-americano, disse na década de 1960 que “um dia todos terão direito a 15 minutos de fama”. Warhol tinha razão. Não só a fama passou a ser efêmera, mas as informações também. Aliás, as notícias transformaram em show. Há pouco mais de dez anos Sílvio Santos trouxe para o Brasil a fórmula de programas que faziam sucesso nos Estados Unidos e na Europa: o reality show. Depois a Globo emplacou o Big Brother Brasil (inspirado no Grande Irmão do livro 1984, de Geoge Orwell, mas esta é uma outra história).
Fiz tal preâmbulo para dizer que nem tudo está perdido. Na segunda-feira estava em casa à noite e ligamos a TV. No momento exato começava a musiquinha chata anunciando o início do BBB, que dá a alguns anônimos 15 minutos de fama. Não aguento ver o Grande Irmão. Como não tenho assinatura de canal pago, sobra-me tentar ver alguma coisa em canal aberto. Nossa sorte é que existe a TV Cultura. Começava naquele momento o programa Rumos da Música, que apresentava o grupo Cia Sons do Cerrado. Um deleite para os ouvidos. Como seu curioso, decidi pesquisar: que som é esse? O grupo nasceu a partir da implantação, no ano 2000, do Centro de Folclore e História Cultural – Projeto Sons do Cerrado –, ligado ao Instituto do Trópico Subúmido e à Universidade Católica de Goiás.
O principal objetivo do Projeto Sons do Cerrado é o de produzir e reproduzir material fonográfico com as diferentes manifestações musicais da região do cerrado na forma de registro, releituras e adaptações de repertório pertencente ao domínio público ou de compositores regionais. O Sistema Biogeográfico do Cerrado ocupa os chapadões centrais da América do Sul e abrange os Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, leste de Mato Grosso, sul do Piauí, sul do Maranhão, parte de Minas Gerais e oeste da Bahia.
O Projeto Sons do Cerrado já lançou treze Cds com grupo de Folia de Reis, folclóricos, com a Camerata Santa Cecília e Cia Sons do Cerrado.
O Brazil realmente não conhece o Brasil. É preciso, como diz Rolando Boldrin, tirar o Brasil da gaveta. São projetos deste tipo que corroboram para que o País não se perca na mediocridade que só busca a fama efêmera, o vale-tudo!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Modernistas


Oswald

Cabral

Ontem, segunda-feira, 11, completou-se 120 anos do nascimento de José Oswald de Souza Andrade. O paulistano Oswald de Andrade é um dos mais significativos autores modernistas da literatura brasileira. Participou da Semana de Arte Moderna, editou o jornal “O Homem do Povo”, ao lado de Pagu, ajudou a fundar “O Pirralho” e a “Revista Antropofágica”. Oswald faleceu em 1954. Deixou uma extensa obra literária – poesias, romances, teatro. Abaixo, o poema Brasil:

Brasil

O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

Outro modernista – este da segunda fase – também faria aniversário no sábado, 9: o pernambucano João Cabral de Melo Neto. Nascido em 1920, em Recife, era primo – pelo lado paterno – de Manuel Bandeira e, pelo lado materno, de Gilberto Freyre. João Cabral fez carreira diplomática – ingressou por concurso no Itamaraty em 1945 – e colecionou prêmios literários. Um dos seus poemas que mais admiro é Tecendo a manhã, que reproduzo:

Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos