terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Wikileaks - o que está em jogo?

Nesta quarta-feira, 15, às 19 horas, acontecerá o debate Wikileaks – o que está em jogo?, com a participação da jornalista Natália Viana (parceira do Wikileaks no Brasil). O evento acontecerá no Sindicato dos Engenheiros – rua Genebra, 25, São Paulo (próximo à Câmara Municipal).
O Wikileaks é uma organização transnacional sediada na Suécia e que publica em seu site posts de documentos, fotos e informações confidenciais vazadas de governos ou empresas. Em abril de 2010, o Wikileaks publicou um vídeo feito três anos antes e mostrando um helicóptero norte-americano “Apache” em ataque em Bagdá em que pelo menos doze pessoas foram mortas, entre as quais dois jornalistas da agência de notícias Reuters, durante a ocupação do Iraque. Outro documento polêmico disponibilizado no site da organização é a cópia de um manual de instruções para tratamento de prisioneiros de Guantánamo, a prisão que os EUA mantêm em Cuba. Recentemente, o site publicou documentos secretos da diplomacia norte-americana. O fundador do Wikileaks, Julian Assange, foi preso na Inglaterra e o site censurado. O presidente Lula protestou contra a prisão de Assange e a censura ao site.
Hoje, quarta-feira, Lula voltou a defender Assange em discurso durante a entrega do Prêmio Nacional de Direitos Humanos. "Com certeza vamos protestar contra aqueles que censuraram o WikiLeaks. Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta. Não pode desnudar apenas um lado, precisa desnudar tudo."

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Liberdade com gosto de pão

Há dois meses não apareço com minhas mal traçadas linhas neste espaço. Mas aos poucos pretendo retomar as publicações com mais periodicidade. Falta mais inspiração que tempo para comentários, mesmo para as bobagens. Neste retorno, deixo uma mensagem de final de ano para todos. Que em 2011 tenhamos a mesma garra e a mesma paixão por uma causa: a de que um outro mundo é possível!

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
(…)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

(Trechos do poema Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade)

Com a certeza de que em 2011 estaremos juntos na luta para ampliarmos nossas conquistas, é que desejamos a todos os professores e professoras um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo,

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O espião do Aécio ou como a“Folha” descobriu o ovo


Encerrada estas eleições, os cientistas da comunicação terão um prato cheio para desenvolver pesquisas sobre a cobertura das eleições presidenciais. Na edição de ontem, 20, a “Folha” trouxe a seguinte manchete: “PF liga quebra de sigilo fiscal de tucano à pré-campanha de Dilma”. Diz o jornal que o jornalista Amaury Ribeiro Jr. encomendara a quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB. A “Folha” descobriu o ovo. No mesmo rastro e com a mesma toada, o “Estadão” de hoje traz chamada de capa dizendo que jornalista ligado ao PT pagou por dados de tucanos. Num quadro, “explica” que PT atribui caso a Aécio.
Aos fatos. O caso da quebra de sigilo do IR, que retorna às capas dos jornalões, teria vindo à tona em 2009. Numa das edições de maio deste ano, a revista “Veja” requentou matérias publicadas no ano passado como fosse uma grande “denúncia”. No dia 4 de junho, o jornalista Leandro Fortes, da Carta Capital, publicou um texto intitulado “Dossiê do dossiê do dossiê” (publicado na íntegra neste blog), onde já apontava o jornalista Amaury Jr. como autor do tal “dossiê”:
“Carta Capital teve acesso a parte do tal 'dossiê' (…) Trata-se, na verdade, de um livro ainda não publicado com 14 capítulos intitulados “Os porões da privataria”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. (…) Ribeiro Jr. afirma que a investigação que desaguou no livro começou há dois anos. À época, explica, havia uma movimentação, atribuída ao deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), visceralmente ligado a Serra, para usar arapongas e investigar a vida do governador tucano Aécio Neves, de Minas Gerais. Justamente quando Aécio disputava a indicação como candidato à Presidência pelos tucanos. 'O interesse suposto seria o de flagrar o adversário de Serra em situações escabrosas ou escândalos para tirá-lo do páreo', diz o jornalista. 'Entrei em campo, pelo outro lado, para averiguar o lado mais sombrio das privatizações, propinas, lavagem de dinheiro e sumiço de dinheiro público.'”
George Orwell não faria melhor. Em seu mais famoso livro, 1984, Orwell faz uma alegoria sobre o totalitarismo, comandando pelo onipresente Grande Irmão (Big Brother), e conta a história de Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade. A função de Winston é reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. Os jornalões também estão reescrevendo a história e alterando dados de acordo com interesses próprios e de uma candidatura, em especial. O que temem nossos barões da imprensa com a eleição de Dilma?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Censura eleitoral


Deu no blog da Maria Fro. A “Revista do Brasil” está sofrendo censura da Justiça Eleitoral. O pedido de censura foi feito pelo PSDB. É uma vergonha como age este partidinho! O “Estadão” pode assumir que apoia Serra, pode? É claro que pode; como a própria revista, que é ligada a setores mais progressistas da sociedade, tem o mesmo direito. Aliás, a verdadeira democracia prevê que as ideias circulem livremente, não é mesmo? Leia a nota publicada pelo Maria Fro:


PSDB atenta contra a liberdade de expressão
Ao mesmo tempo que o PSDB imprime em gráfica do coordenador de infra estrutura da campanha de José Serra (PSDB), Sérgio Kobayashi panfletos apócrifos atribuídos à CNBB contra a candidata Dilma Rousseff a sua coligação “O Brasil pode mais” alegando na Justiça que a Revista Do Brasil faz campanha pró-Dilma pediu e conseguiu censurar a Revista do Brasil número 52.
Já imaginou se a coligação da candidata Dilma fosse censurar a Veja que faz campanha sistemática contra o PT? Quem é o censurador?
A edição de outubro censurada pelos tucanos traz reportagens sobre o momento do país e o cenário eleitoral.
Além de mandar parar a distribuição, o PSDB e José Serra querem que o conteúdo da revista seja retirada do site. Os tucanos pediram também a apreensão da publicação – tudo “em segredo de Justiça”, para esconder a tentativa de censura da opinião pública. Essa demanda não concedida pelo TSE.

A fé como embuste


É impressionante o que a despolitização de um povo (ou parte dele, pelo menos) pode fazer mal a um país. Chegamos ao cúmulo de transformarmos a eleição num plebiscito sobre a liberalização ou não do aborto – e com o apoio de parte dos meios de comunicação. Ora, fossem os que se dizem religiosos pouco mais informados saberiam que esta questão – mudanças nas leis – se dá em âmbito do Congresso Nacional. Aliás, esta mesma discussão está em pauta no Congresso desde 1995. Há 15 anos, portanto!
Mas a direita brasileira sabe muito bem usar o desconhecimento do povo. Afinal, durante mais de 500 anos apostam na ignorância para impôr sua ideologia de dominação.
Nestas eleições, especialmente, o jogo da direita tem sido muito baixo. Sem propostas para a construção do futuro do País, a campanha de Serra tem apostado no terrorismo da boataria, explorando – com competência, é preciso dizer – a ignorância e os medos de uma boa parcela do eleitorado. Collor de Mello utilizou-se deste mesmo expediente contra o Lula, nas eleições de 1989. Os “colloridos” à época diziam que Lula iria “implantar o comunismo", tomar a casa das pessoas, as galinhas, os patos, os porcos, os carros. Deu no que deu. Se voltarmos 46 anos no relógio do tempo, nos depararemos com movimento reacionário que gerou consequências muito maiores. Em 1964, um padre irlandês – Patrick Peyton – liderou e fundou uma entidade chamada “Movimento da Cruzada do Rosário pela Família”. Este movimento foi o embrião da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que precipitou a derrubada do presidente João Goulart pelo golpe militar.
Ao apostar no voto e na influência dos setores mais conservadores da Igreja Católica Romana e entre as denominações evangélicas, o candidato Serra foi longe demais. Num cartão entregue a professores “convocados” pela Secretaria da Educação para um evento com o candidato tucano no dia 15, Serra escreveu no verso: “Jesus é a verdade e a justiça”.
O que diria o padre que fez minha “primeira comunhão”, e que vivia insistindo: “Não usarás o nome do Senhor em vão” (Ex 20, 7 )?
Desde a Proclamação da República, em 1889, o Estado brasileiro é laico. Com quais interesses um candidato usa o nome de Jesus Cristo numa campanha eleitoral? O de apenas embustear aqueles que têm fé?
É preciso lembrar que no evangelho de Mateus há o seguinte versículo: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” (Mt 7, 21)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Aldir Blanc e o sabonete verde


Andei sumido, mas como dizem, o bom filho sempre torna à casa.
Esta tem sido a eleição mais suja dos últimos anos. Parece-me que há muita gente neste país com saudades da "marcha com Deus pela liberdade"(pé de pato, mangalô três vezes, como exorcizava minha avó). Por isto aproveito este espaço para publicar declaração de voto do grande compositor Aldir Blanc (sim ele mesmo, o grande parceiro de João Bosco). O texto -- e a imagem dele -- foi originalmente postada no blog Buteco do Edu (aqui) Diz o texto:
"Pilatos não pode mais lavar as mãos com sabonete verde. Lamentável que Marina e o PSOL estejam 'pensando'. Os que morrem de fome, de pancada, os que foram torturados e mortos, esses não tiveram esse confortável tempo para optar. A reação, desde a Comuna de Paris, desde os Espartaquistas, sempre matou mais rápido, enquanto gente do 'bem' pensava...
"Vote em Dilma -- ou regridam às privatizações selvagens, à perda da Petrobras, ao comando do latifúndio, dos ruralistas, dos banqueiros, de todas as forças retógradas do país, incluindo os torturadores."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Imprensa: partido informal

Reproduzo abaixo o contundente artigo do jornalista e escritor Eric Nopomuceno – tradutor do prêmio Nobel de Literatura Gabriel Garcia Marquez – sobre a imprensa brasileira, que faz o papel da oposição no Brasil. O título original do artigo é La prensa, verdadera oposición en Brasil. O artigo traduzido retirei do site RS Urgente, de Marco Aurélio Weissheimer.

Considerado o fundador do Estado moderno no Brasil, Getúlio Vargas foi alvo de uma contundente campanha encabeçada pelo jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. Terminou se suicidando com um tiro no coração em agosto de 1954. Criador de Brasília e um dos presidentes mais populares do Brasil, Juscelino Kubitschek enfrentou a resistência feroz do conservador O Estado de São Paulo. Acusado de corrupção irremediável, jamais se comprovou nada contra ele. Histórico dirigente da esquerda, o trabalhista Leonel Brizola foi governador do Rio de Janeiro em 1982, no início do processo da democratização, e passou seus dois governos sob uma campanha implacável (e freqüentemente mentirosa) do mais poderoso grupo de comunicações da América Latina, que controla a TV Globo e o jornal O Globo.
Nunca antes, porém, um presidente foi tão perseguido pelos meios de comunicação como ocorre com Luiz Inácio Lula da Silva. Com freqüência assombrosa foram abandonadas as regras básicas do mínimo respeito cidadão. Um bom exemplo disso é a revista Veja, semanário de maior circulação no país, que sem resquícios de pudor público denuncia escândalos em seqüência que acabam não sendo comprovados. Em sua página na internet abriga comentaristas que tratam o presidente da Nação de “essa pessoa”. O mesmo grupo que controla a TV Globo, cujo noticiário tem a maioria da audiência, o matutino O Globo, principal jornal do Rio e segundo em circulação no Brasil, e a principal cadeia de rádio, CBN, não perde a oportunidade de destroçar Lula e seu governo, sem preocupar-se nem um pouco com a veracidade de seus ataques. O jornal Folha de São Paulo, de maior circulação no país, divulga qualquer denúncia como se fosse verdadeira e não se priva de aceitar que um ex-condenado por receptação de mercadorias roubadas e circulação de dinheiro falso se transforme em “consultor de negócios” e lance acusações sem apresentar nenhuma prova. Até o conservador O Estado de São Paulo, que até agora era o mais equilibrado na oposição ao governo, optou por ingressar neste jogo sem regras nem norte.
Frente à inércia dos principais partidos de oposição, o PSDB e o DEM, os meios de comunicação ocupam organicamente esse espaço. Isso foi admitido, há alguns meses, pela própria presidente da Associação nacional de Jornais (ANJ), Judith Brito, da Folha de São Paulo. Mais grave, porém, é o que nenhum destes grupos admite: mesmo antes de iniciar a campanha sucessória de Lula, esse enorme partido informal (mas muito eficaz) de oposição optou por um candidato, José Serra, que não respondeu às suas expectativas. E frente à incapacidade de sua campanha eleitoral, os meios de comunicação brasileiros decidiram atacar a candidatura de Dilma Rousseff, ignorando os limites éticos.
Essa politização absoluta e essa tomada de posição pela imprensa terminaram por provocar a reação de Lula. Suas críticas, por sua vez, provocaram uma irada onda de novas denúncias, indicando que o presidente pretendia impedir a liberdade de expressão e de opinião. No entanto, em seus quase oito anos como presidente, Lula em nenhum momento representou uma ameaça à grande imprensa, por mais remota que fosse. Alguns movimentos para impor algumas regras e impedir a permanência de um esquema de quase monopólio foram neutralizados pelo próprio Lula que optou pelo não enfrentamento com as oito famílias que concentram o controle dos meios de comunicação no maior país latinoamericano.
A liberdade de imprensa é absoluta no Brasil, ao ponto de ter se transformado em liberdade de caluniar. Os grosseiros ataques, freqüentemente baseados em nada, contra Lula e seus governo aparecem todos os dias, sem que ninguém trate de impedi-los. E, ainda assim, os grandes meios não deixam de denunciar ameaças à liberdade de expressão. Talvez a razão de tudo isso repouse no que ocorreu quando o Brasil voltou á democracia, há 25 anos. Ao contrário do que ocorreu em outros países que reencontraram a democracia – penso especificamente nos casos da Espanha e da Argentina -, no Brasil a imprensa não se democratizou. Não surgiram alternativas que respondessem aos diferentes segmentos políticos e ideológicos. Prevaleceu o cenário em que cada meio apresenta o eco de uma mesma voz, a do sistema dominante.
Para esse sistema, Lula era um risco suportável. Já a sua sucessão é outra coisa. E se o candidato da oposição se mostra um incapaz, o verdadeiro partido oposicionista revela sua cara mais feroz. Ao exercer a liberdade do denuncismo barato, mostra seu inconformismo com a manifestação do desejo dessa massa de ignaros que é chamada de povo. Essa gente que não era nada e passou a se considerar cidadã. Isso sim é inadmissível.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Aula de sacanagem, ou como chamar leitor de burro

Tirem as crianças da sala; escondam os jornais dos guris, escancarou geral: a imprensa brasileira está dando aulas de sacanagem. De sacanagem política! Manchete da “Folha” de hoje: “Com escândalos, cai vantagem de Dilma, mostra o Datafolha”. Do lado da manchete, um infográfico que mostra a “queda”: Dilma tinha 51% dos votos no dia 9 de setembro; agora aparece com 49%; Serra, 27%, agora, 28%. Se a própria metodologia da pesquisa prevê que a margem de erro é de 2 pontos percentuais, para cima ou para baixo, o leitor que domina as quatro operações matemáticas tem capacidade para perceber que nada mudou: 49 + 2= 51. Dos votos válidos, o jornal informa que a projeção é que 54% dos eleitores votariam na candidata do PT, fosse hoje as eleições.
Para piorar, Mauro Paulino, Diretor Geral do Datafolha – que está colocando sua credibilidade profissional à prova – escreve que “pela primeira vez em dois meses, Dilma apresenta revés na campanha”. Continua o “analista”: “A tendência reflete não só o prejuízo sofrido pela candidatura do governo após denúncias de tráfico de influência na Casa Civil, a consequente demissão de Eunice Guerra, como também a evolução de Marina Silva para segmentos menos elitizados do eleitorado.” Marina Silva passou de 11% para 13%, ou seja, dentro da margem de erro.
O pior é que todo mundo está repercutindo a “queda” da candidata petista. O “Estadão” insinua inclusive que o resultado levou o presidente do PT ao desespero.
Quem a imprensa pensa que engana. Independentemente de minhas preferências eleitorais, sinto-me agredido por tal postura. Afinal, a “Folha” está me chamando de burro.
É claro que as “denúncias” – que só ganharam importância jornalística com as proximidades da eleição – não surtiram qualquer efeito, e que estes jornais não querem enxergar. Eta imprensa golpista, sô!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A democracia "deles"

Intelectuais devem lançar hoje, quarta-feira, 22, “Manifesto em Defesa da Democracia”, cuja meta, segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, é o de “brecar a marcha para o autoritarismo”. Ao ler a cabeça da matéria, pensei: “Nossa, o 'Estadão' está denunciando o José Serra?” Bem, não sou ingênuo o bastante. Mas se há alguém com perfil autoritário concorrendo às eleições presidenciais esta figura é o senhor José Serra, que não aceita qualquer tipo de crítica. Serra mandou demitir uma jornalista da “Folha de S. Paulo” porque, durante a greve dos professores, “ousou” contestar dados que ele passava à imprensa numa coletiva no Palácio dos Bandeirantes. Nenhum intelectual, muito menos os jornalistas, levantaram qualquer bandeira em defesa da “liberdade” de imprensa; mais recentemente, mandou demitir o diretor de jornalismo da TV Cultura, porque ele “permitiu” que a emissora veiculasse num de seus programas jornalísticos matéria criticando o preço dos pedágios praticados nas principais rodovias do Estado de São Paulo. Não vi manifestação de nenhum intelectual em defesa do jornalista.
Quando Lula ganhou a eleição em 2002, derrotando o próprio Serra – 63% dos votos a 38,7% – disse a um colega: “No primeiro deslize do Lula no governo, a imprensa vai descer o pau!” Inebriado pela vitória, contestou minha análise. Não demorou muito para a “lua-de-mel” da imprensa com o novo governo – o primeiro eleito pela esquerda – transformar-se em “lua de fel”. Nestes 8 anos, a imprensa não economizou adjetivos pejorativos para referir-se a Lula. O presidente não cortou verbas publicitárias de nenhuma revista, nenhum jornal ou rede de TV.
Acontece que nesta campanha eleitoral, a grande mídia não vem desempenhando o papel de partido político, publicando uma série de matérias cujas denúncia não se sustentam, mas que ganham suítes diariamente. Este não é bom jornalismo. Ademais, não se dá para falar de LIBERDADE de imprensa quando os principais meios de comunicação do país ficam nas mãos de meia dúzia de famílias aristocráticas e de políticos minúsculos.
Em excelente artigo publicando pela Agência Carta Maior, Por que a grande mídia e a oposição resolveram jogar sujo, Vinicius Wu sintetiza bem a celeuma: “A grande mídia e a oposição não compreenderam que o país entrou em um novo período histórico e, desta forma, correm o risco de ficarem falando sozinhas por um bom tempo. As pessoas não estão votando em personalidades, como supunham os próceres da campanha Serra. Estão votando no futuro - no seu futuro e no futuro do país. A disputa eleitoral de 2010 não ficará marcada pelo 'confronto de biografias', como imaginavam os tucanos e seus aliados no início da campanha. Derrotados em seus próprios conceitos; perplexos diante de uma ampla maioria que lhes vira as costas, só lhes resta o golpe, que não tem força pra dar.”

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A culpa é do peru


Quanto tinha uns 5 anos, vivia numa casa enorme numa cidade do Interior, com um grande quintal – na minha visão de piá, um latifúndio onde se criava galinhas e até um peru. Uma vez entrei na cozinha em disparada carreira e topei com a mesa. A cabeçada doeu, mas o que mais me assustou foi a queda de uma xícara que estava sobre a mesa. Minha mãe adorava aquela louça, que se espatifou no chão. Com medo de levar um pito daqueles, peguei a vassoura e recolhi os cacos. Sem saber onde jogar, cavei um pequeno buraco no quintal e enterrei a prova do crime.
Como nem todo crime é perfeito – sem contar que minha mãe tinha um faro de Sherlock Holmes – fui descoberto. Os cacos mal varridos me denunciaram.
Quando minha mãe me perguntou: “Você quebrou minha xícara?”, não pensei duas vezes: “Não, mãe, foi o peru. Ele pulou a cerca e entrou na cozinha”. A bronca foi maior, não porque a xícara se quebrou, mas porque menti.
O governo do Estado de São Paulo – aliás, o tucanato em geral – não consegue admitir que erra. Sempre o peru é o culpado. Quem usa do metrô para ir trabalhar ou estudar sabe que todos os dias há problemas seja na linha azul, na vermelha ou na verde. Pois bem, hoje pela manhã a linha vermelha viveu mais um dia de caos que, como o efeito borboleta, repercutiu em todo o trânsito de São Paulo. Uma amiga ficou presa numa composição na estação Bresser e demorou mais de duas horas para chegar ao trabalho. Contou que os funcionários do metrô não tinham qualquer informação e que o problema teria ocorrido na estação Sé. Os alto-falantes da estação informavam que “usuários” estariam na linha.
Ainda pela manhã, o governo se antecipou e disse que uma blusa presa numa das portas causou o caos. Soninha Francine, do PPS (aquela que entende de futebol), coordenadora de campanha do Serra na Internet, saiu-se com essa: "Metrô de Spaulo tem problemas na proporção direta da proximidade com a eleição. Coincidência? #SABOTAGEM #valetudo #medo". A culpa é sempre do peru.
(A imagem é da "Folha de S. Paulo")

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Serra, sua filha e a privataria

Aristóteles, o grande filósofo grego, dizia que os comerciantes, artesãos e agricultores estariam excluídos da cidadania por dois motivos: falta de virtude e falta de ócio. O ócio seria necessário para que o cidadão pudesse exercer com afinco as funções públicas judiciárias, legislativas e governamentais. Como meus dois ou três leitores sabem, voltei a estudar. Mais uma vez constatei que o ócio é também necessário àqueles que buscam o conhecimento. Coisa que me falta. Tenho usado o pouco tempo de folga – inclusive o trajeto trabalho-casa no transporte coletivo – para afundar meu nariz nos livros. Por isso as ausências constantes neste espaço.
Digo isto porque gostaria de acompanhar com mais dedicação o período eleitoral – inclusive com comentários neste espaço. Tenho, confesso, dado uma olhadela nos jornalões e pescado informações na internet. Já não tenho mais saco para as matérias sobre a violação do sigilo fiscal de alguns figurões do PSDB. É coisa antiga, remonta a 2009 e andou querendo renascer mesmo antes do início da campanha tomar as ruas pelas regras do TSE. Mas bastou a Dilma disparar nas pesquisas de intenção de voto para que o “escândalo” ganhasse as capas dos principais jornais de São Paulo e grande espaço dos noticiosos da Globo. História requentada, conforme já disse, pois “denunciada” pela “Veja” em maio.
Serra foi para a TV – de novo a Globo! – chorar pitangas e dizer que a Dilma estava usando armas de Fernando Collor em 1989 e “usando” sua filha para fazer “jogo sujo”. E a imprensa - por incopetência ou em descarada campanha golpista - repercutiu.
O PSDB entrou no Tribunal Superior Eleitoral pedindo a cassação do registro de Dilma. No dia 2 de setembro, o corregedor-geral eleitoral, ministro Aldir Passarinho Junior, arquivou o pedido. De acordo com o jornalista Marcos Aurélio Weissheimer, da agência “Carta Maior”, “na representação a coligação de Serra acusa Dilma e outras seis pessoas (o candidato ao Senado por Minas Gerais, Fernando Pimentel, os jornalistas Amaury Junior e Luiz Lanzetta, o secretário da Receita Federal Otacílio Cartaxo, e o corregedor-geral da Receita Federal, Antonio Carlos Costa D’Ávila) de 'usar a Receita Federal para quebrar o sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato Serra, com a intenção de prejudicá-lo em benefício da campanha da candidata Dilma'”.
Por que citou os jornalistas Amaury Júnior e Luiz Lanzetta? Fui descobrir fuçando na internet, onde “descobri” uma matéria na "CartaCapital" assinada por Leandro Fortes, datada de 4 de junho. Peço licença à revista para reproduzi-la abaixo:

O dossiê do dossiê do dossiê…
04/06/2010 13:03:26
Leandro Fortes, na Carta Capital
No modorrento feriado de Corpus Christi, os leitores dos jornais foram inundados com informações sobre uma trama que envolveria a fabricação de dossiês contra o candidato tucano à Presidência, José Serra, produzidos por gente ligada ao comitê da adversária Dilma Rousseff. O time de espiões teria sido montado pelo jornalista Luiz Lanzetta, dono da agência Lanza, responsável pela contratação de funcionários para a área de comunicação da campanha petista. O primeiro desses documentos seria um relatório sobre as ligações de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB, com Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. Uma história tão antiga quanto os dinossauros e já relatada inúmeras vezes na última década, inclusive por CartaCapital.
A notícia sobre o suposto dossiê, que ninguém sabe dizer se existe de fato, veio a público em uma reportagem confusa da revista Veja e ganhou lentamente as páginas dos jornais durante a semana até ser brindada com uma forte reação do PSDB e de Serra. Na quarta-feira 2, o pré-candidato tucano acusou Dilma Rousseff de estar por trás da “baixaria” e cobrou explicações. A petista disse que a acusação era uma “falsidade” e o presidente do partido, José Eduardo Dutra, informou que a cúpula da legenda havia decidido interpelar Serra na Justiça por conta das declarações.
Os boatos sobre a fábrica de dossiês parecem ser fruto de uma disputa interna entre dois grupos petistas interessados em comandar a estrutura de comunicação da campanha de Dilma Rousseff, um ligado a Lanzetta, outro ao deputado estadual Rui Falcão. A origem dessa confusão era, porém, desconhecida do público, até agora. CartaCapital teve acesso a parte do tal “dossiê” que gerou toda essa especulação. Trata-se, na verdade, de um livro ainda não publicado com 14 capítulos intitulado Os Porões da Privataria, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.
O livro descreve com minúcias o que seria a participação de Serra e aliados tucanos nos bastidores das privatizações durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. É um arrazoado cujo conteúdo seria particularmente constrangedor para o pré-candidato e outros tantos tucanos poderosos dos anos FHC. Entre os investigados por Ribeiro Jr. estão também três parentes de Serra: a filha Verônica, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Está sendo produzido há cerca de dois anos e nada tem a ver com a suposta intenção petista de fabricar acusações contra o adversário.
É essa a origem das informações sobre a existência do tal “dossiê” contra a filha de Serra. E a razão de os tucanos terem lançado um ataque preventivo às informações que constam do livro. De fato, Ribeiro Jr. dedicou-se a apurar os negócios de Verônica. Repórter experiente com passagens em várias redações da imprensa brasileira, Ribeiro Jr. iniciou as apurações a pedido do seu último empregador, o Grupo Diários Associados, que congrega, entre outros, os jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. O livro narra, por exemplo, supostos benefícios obtidos por Marin Preciado em instituições financeiras públicas, entre elas o Banco do Brasil, na época em que outro ex-tesoureiro de Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira, trabalhava lá. Para quem não se lembra, Oliveira ficou famoso após a divulgação de sua famosa frase “no limite da irresponsabilidade” no conjunto dos grampos do BNDES.
Em uma entrevista que será usada como peça de divulgação do livro e à qual CartaCapital teve acesso, Ribeiro Jr. afirma que a investigação que desaguou no livro começou há dois anos. À época, explica, havia uma movimentação, atribuída ao deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), visceralmente ligado a Serra, para usar arapongas e investigar a vida do governador tucano Aécio Neves, de Minas Gerais. Justamente quando Aécio disputava a indicação como candidato à Presidência pelos tucanos. “O interesse suposto seria o de flagrar o adversário de Serra em situações escabrosas ou escândalos para tirá-lo do páreo”, diz o jornalista. “Entrei em campo, pelo outro lado, para averiguar o lado mais sombrio das privatizações, propinas, lavagem de dinheiro e sumiço de dinheiro público.”
A ligação feita entre o nome de Ribeiro Jr. e o anunciado esquema de espionagem do comitê de Dilma deveu-se a um encontro entre ele e Lanzetta, em Brasília, no qual se especulou sobre sua contratação para a equipe de comunicação da campanha petista. Vencedor de três prêmios Esso e quatro prêmios Vladimir Herzog, entre muitos outros, Ribeiro Jr., 47 anos, é conhecido por desencavar boas histórias. Herdeiro de uma pizzaria e uma fazenda em Campo Grande (MS) e ocupado com a finalização do livro, o jornalista recusou o convite.
Na entrevista de divulgação do livro, Ribeiro Jr. afirma que a obra estabelece a ligação de diversos tucanos com as privatizações e desnuda inúmeras ações com empresas offshore para fazer entrar no Brasil dinheiro oriundo de paraísos fiscais. “São operações complicadas e necessitam ser explicadas com cuidado para os brasileiros perceberem o quanto foram lesados e em quanto mais poderão ser.”
A aproximação entre Ribeiro Jr. e Lanzetta, contudo, teria sido suficiente para que grupos interessados em ganhar espaço na campanha petista desencadeassem uma onda de boatos sobre a formação de um time de contraespionagem para produzir dossiês contra os tucanos. Diante do precedente dos “aloprados” do PT, a mídia embarcou com entusiasmo na versão depois assumida com tanto vigor pelos próceres tucanos. É mais um não fato da campanha.
O mesmo fenômeno envolveu o ex–delegado federal Onésimo de Souza, especialista em contraespionagem que chegou a oferecer serviços ao PT de vigilância e rastreamento de escutas telefônicas. Como cobrou caro demais, acabou descartado, mas foi apontado como futuro integrante da tal equipe de arapongas de Dilma Rousseff.
Por ordem da pré-candidata, qualquer assunto relativo a dossiê e afins está proibido no comitê de campanha instalado numa casa do Lago Sul de Brasília. Dilma se diz “estarrecida” com as acusações veiculadas, primeiro, na revista Veja e, em seguida, por diversos outros veículos – sempre com foco na suposta espionagem, nunca no conteúdo do suposto dossiê. Aos auxiliares, a petista mandou avisar que não aceitará, “em hipótese alguma”, a confecção de dossiês durante a campanha e demitirá sumariamente quem se envolver com tal expediente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Dunga detona Serra


O desespero baixou no ninho do tucano. O Zé só diz e faz bobagens. No programa de TV, o Serra dos pedágios atacou Dunga, levou o troco. Leia entrevista de Dunga publicada no “Diário de S. Paulo” de hoje, sexta-feira, 3:

Usado como exemplo pela campanha de José Serra no rádio para criticar a falta de experiência da candidata do PT Dilma Rousseff, o ex-treinador da seleção brasileira Dunga respondeu bem ao seu estilo. Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO, Dunga rebateu a comparação feita pela campanha de Serra entre ele e Dilma. "O Serra tem experiência. É um craque para governar o Brasil. A Dilma não. É que nem o Dunga. Nunca foi técnico de nenhum time, foi para a seleção e deu no que deu", diz uma pessoa não identificada.

Veja o que diz o ex-técnico da seleção:
Comparação
É só ver os meus resultados e comparar. Quando eu fui campeão da Copa América e da Copa das Confederações, ele me elogiou. Agora crítica. Talvez ele esteja desesperado.

Defeitos
Eu acho que ele deveria assumir os seus defeitos para depois achar defeito nos outros.

Problemas
São Paulo não tem problema? Alaga mais que Veneza, ônibus são incendiados todos os dias. Só o fato de São Paulo ter decidido na última hora o estádio da Copa já diz tudo. Por que ele está preocupado comigo?

Lula
O Lula também não tinha experiência e tem 80% de popularidade. Ele está fazendo o que os outros não fizeram em cem anos.

Dilma
Dilma é uma mulher e pode ser a primeira mulher presidente do Brasil.

Democracia
Quando o Brasil precisou da Dilma ela não fugiu, lutou aqui pela democracia. Alguns correram.

Política
Para mim isso é natural (ser citado na propaganda). Se eles falassem o que deixaram de fazer seria melhor para o eleitor escolher.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

JB, agora só na Internet


A edição impressa do Jornal do Brasil vai às bancas pela última vez hoje, 31 de agosto. Fundado há 119 anos no Rio de Janeiro, o JB terá, de agora em diante, apenas a versão na internet. A decisão de suspender a impressão do jornal tem como principal motivo, não reconhecido pelos atuais proprietários do jornal, as dívidas acumuladas pela empresa – cerca de R$ 800 milhões em dívidas trabalhistas e fiscais.
Nas décadas de 1950-1960 o JB foi um dos principais jornais do País. Em 1958 promoveu uma reforma editorial, gráfica e industrial que tornou-se referência para outros periódicos e influenciou de forma decisiva o jornalismo brasileiro.
De acordo com matéria veiculada pelo jornal O Estado de S. Paulo, dos 50 jornalistas que trabalhavam na redação do JB, apenas 10 devem ficar na versão digital.
Não sou contra as inovações tecnológicas, mas como fui formado em redações onde ainda se batucavam nas “olivites”, a diagramação era feita a mão e ainda havia o past-up, sinto um pouco de tristeza pelo fim de um periódico impresso. Adoro o cheiro de tinta de jornal impresso.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Palestra e Livorno ganham

Em termos futebolísticos, o final de semana foi perfeito. O Palmeiras bateu o Atlético-MG, em Ipatinga, e o Livorno venceu a primeira pela Série B do Italiano. Fez 3 a 0 no Albinoleffe.
Confesso que não vi o jogo em que o Palmeiras venceu o Atlético-MG neste domingo, pela 17ª rodada do Brasileirão, por isto não posso dizer se jogamos bem ou não -- e, por conseguinte, se temos esperanças de o time melhorar muito e, pelo menos, conquistar uma vaga para a Libertadores 2011. Neto Beroba abriu o placar aos 7 minutos do segundo tempo; o Palmeiras empatou aos 21 minutos, com Marcos Assunção aproveitando rebote de Fábio Costa, e virou, aos 31, com Kleber. O Palmeiras foi a única equipe a vencer fora de casa na rodada deste final de semana.
Se não tivesse tropeçado diante do outro Atlético, o de Goiás, o Palestra estaria ocupando o sexto lugar. Por ironia do destino, depois de comemorar os 100 anos do Corinthians, os tifosi da Marginal s/nº torcerão na quarta-feira para o Palestra tirar pontos do Fluminense.
Na segunda rodada do Campeonato Italiano da Série B, o Livorno venceu por 3 a 0 ao Albinoleffe no estádio Azzurri d'Itália, em Bergamo, com gols de Tavano, Dionisi e Surraco. A próxima partida será domingo contra o Siena, em casa, no Estádio Armando Pecchi.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Visita do governador


Adhemar, quando governador de São Paulo, na década de 40.


As eleições estão perdendo a graça, não há clima de eleição nas cidades. Tudo é proibido. Os comícios, embora ainda aconteçam, já não são mais os mesmos. Aliás, o desinteresse pela política vem num crescendo desde a década de 1990. Para atrair o povão, os candidatos apelavam para mega-shows com estrelas da música popular. Depois que se proibiu os shows, o povão não tem mais participado em massa. Grande parte do público dos atuais comícios é formado pela militância dos partidos e, o que é pior, pelos cabos eleitorais “pagos” para segurar bandeiras de candidatos.
Os palanques hoje são eletrônicos – televisão, rádio, twitter, blogs etc.
Houve uma época em que os comícios agitavam os bairros das grandes cidades e especialmente as do interior. Os comícios eram eventos concorridos. E como bem lembrou o jornalista Mouzar Benedito numa deliciosa crônica publicada no sítio Via Política, comício de prestígio tinha que ter pelo menos um bêbado. A crônica ativou meus neurônios e lembrei-me de uma história que meu pai contava sobre Adhemar de Barros, um político de prestígio nas décadas de 40 e 50 em São Paulo, mas um tanto polêmico e até folclórico - teria sido o primeiro político a ser "defendido" pela frase "rouba mas faz". Aos fatos:
Então governador do Estado, Adhemar de Barros, que tinha fama de beberrão, foi a Gália – cidade natal de minha família – inaugurar uma ponte que a prefeitura construíra com verbas repassadas pelo Estado. O então prefeito, um tal Custódio, era aliado do governador.
O avião do governador desceu num pasto de uma fazenda vizinha à ponte. O carro do prefeito foi buscá-lo, arrastando atrás um sem número de moleques em algazarra. Já na entrada da ponte, pouco antes de cortar a fita de inauguração, Adhemar olhou bem para a construção, tirou o chapéu e interpelou o prefeito:
– Custódio, eu mando dinheiro pra fazer uma ponte e você constrói uma pinguela?
A ponte era de madeira, mas o projeto previa que fosse de concreto. Ainda sem graça, Custódio convidou o governador a entrar em seu automóvel e ser o primeiro a atravessar a nova construção para dirigirem-se ao centro da cidade, onde o povaréu os aguardava para um comício.
Já enfastiado, iniciou assim o seu discurso: “Povo de Garça...” Percebendo a gafe, um assessor tentou corrigir o mandatário-mor soprando-lhe ao pé de ouvido: “Governador, é povo de Gália”. Irritado e esquecendo-se que estava com o microfone em mãos, disparou: “Gália, Garça, é tudo a mesma merda”...

Inferno astral


O Palestra fez 96 anos nesta quinta-feira. Mas o presente esperado pela torcida não veio. O mimo foi de grego. Elias, o goiano, saiu do cavalo de Troia e acertou três flechadas certeiras no calcanhar de Aquiles. Azedou o chope, roubou a azeitona das empadas, o rapaz. E como o Palmeiras gosta de ajudar os desesperados! Será reflexo do lado socialista do Belluzzo?
Infelizmente o Verdão não tem atravessado boa fase. É fato que no futebol só tem três resultados possíveis: empate, derrota e vitória. E a derrota é normal, como diria Durkheim, e só se transforma em anomalia quando se torna recorrente. É por isso que o Palmeiras precisa abrir o olho para não acompanhar o “grande” time da aristocracia das bandas do Morumbi na disputa por uma vaga na Série B!
Mas não tem nada não. Amanhã, quem sabe, seremos os caçadores.
O Livorno, o time que torço na Itália, não estreou bem na Série B do Italiano. Perdeu em casa para o Sassuolo, por 4 a 0. Neste sábado busca a reação contra o Albinoleffe. O Livorno era o time de coração de Antonio Gramsci (o “fundador” da esquerda ocidental) e é o time do coração dos comunistas italianos. Existe, inclusive uma torcida ultra (facções que agregam a política e o futebol) comunista.
Meus times, com certeza, andam na fase que os astrólogos – não, não os astrônomos – chamam de “inferno astral”. (Na foto, Valdívia é a imagem do time.)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

96 anos de glórias


Aos meus quatro ou cinco leitores. Há tempos que não apareço por estas plagas cibernéticas. Primeiro, está faltando tempo (em tempos modernos, o que menos temos é tempo; praga do século XXI), e depois, tive problemas com esta merda de computador (ou seria analfabetismo informático?). Bem, vamos aos fatos. O glorioso Palmeiras completa no dia de hoje 96 anos de existência. Pensei em escrever uma crônica para homenagear meu time de coração. Faltou-me inspiração -- e tempo, ele de novo!. Assim, passeando pelo cipoal internético, deparei-me com a coluna do Roberto Torero, que publicou uma crônica de Marcio R. Castro. Não pedi licença nem pra um nem pra outro para publicá-lo (como não sou um ladrão cibernético, diria que emprestei o belo texto para editá-lo neste espaço). Diviram-se

 
Só de coisa importante
Por Marcio R. Castro
Seu Vittorino Gennaro completa hoje 96 invernos. Se bem que, mesmo em agosto, ainda inverno portanto, seria mais justo falarmos em
primaveras.
Primeiro porque inverno passa a impressão de fim da linha, o que definitivamente não é o caso do vecchio signore. Ele é daqueles que nos
causam admiração aos 30, inveja aos 50 e uma certa raiva depois dos 60.
Depois, porque primavera é a estação em que o verde fica mais verde. Argumento que basta, nada é mais verde que o coração do Seu Vittorino.
Palestrino de nascimento, parmerista desde sempre e palmeirense até a morte, se ela um dia vier.
De uns tempos para cá, vez ou outra a memória do patriarca resolvia falhar. Nada de muito grave, não se alarme. Esquecer onde estavam as
chaves era o que acontecia de mais preocupante. Vittorino dizia que sua memória estava ótima, ele só não tinha mais paciência para lembrar de
qualquer banalidade, só de coisa importante.
Mesmo assim, nonno Vitto percebeu que essas pequenas mancadas de sua memória haviam deixado seus familiares preocupados. No último
domingo, ao chegar à cozinha, se deparou com seus dois bisnetos adolescentes, que conversavam sobre futebol em meio a mordidas em
sanduíches de mortadela. Meio sem quê nem porquê, Dom Vittorino disparou:
- Fred, Júlio, nostro Palmeiras joga hoje pelo Rio-São Paulo?
Os dois se olharam ressabiados. Será que nonno Vitto começava a esquecer até as coisas do Palestra? Logo ele???
- Não, nonno, o Rio-São Paulo não é mais jogado. O Verdão é o maior vencedor do torneio, com cinco taças. E nossos títulos são todos inteiros,
nenhuma conquista dividida, nem inacabada, lembra?
- Ah, é vero, ando meio esquecido, jogamos agora no Brasileirone... A propósito, e campeone brasileiro, nós já fomos?
- Como assim, nonno?! O Palmeiras é o maior de todos, temos oito títulos. São duas Taças Brasil, dois Roberto Gomes Pedrosa e quatro
Brasileirões. Sem contar que também somos o clube com mais taças nacionais. Com a Copa do Brasil e a Copa dos Campeões, somamos dez
conquistas! Só a gente ganhou tanto. O senhor esqueceu?
- Dio santo, é vero! Agora me recordo, o Verdone também é o único clube a vencer todas as competiciones nacionais já disputadas, não é?
Com a piscada do nonno, a farsa acabava. Os garotos ficaram aliviados, sorriram com a pegadinha do bisavô, mas resolveram continuar a gincana
alviverde.
O primeiro título mundial do futebol brasileiro? Palmeiras, sete anos antes da Seleção. Na final da Copa Rio, mais de 100 mil pessoas no
Maracanã. Pobre Juventus de Turim...
Falamos de Seleção? Qual o único clube que representou o Brasil por inteiro, do goleiro ao ponta-esquerda, do técnico ao último reserva?
Palmeiras, 1965, inauguração do Mineirão. Os uruguaios tomaram de três.
Momentos críticos também vieram à baila, sem ressalvas. A fila de 16 anos? Acabou em grande estilo, 4 a 0 no arquirrival. E quando eles estavam
nos 20 anos de fila, nós os deixamos na espera por mais três.
O rebaixamento? Até quando cai, um gigante fica de pé. Fomos e voltamos campeões, sem tapetão, sem regulamentos estranhos, sem
pataquada. Com o Palmeiras, o futebol brasileiro finalmente se moralizou, pelo menos nessa questão: nunca mais houve viradas de mesa.
E a inusitada conversa foi se estendendo. As Academias, o jogo de estreia do Pacaembu, a Libertadores, o supercampeonato de 59, a arrancada
heróica de 42, a Copa Mercosul, o Palestra de São Paulo, a surra de seis em cima do Boca, os 24 títulos estaduais (sim, tem os dois Campeonatos
Paulistas Extras), a sova de oito pra cima do Corinthians (coitados!), os três troféus Ramon de Carranza (dois deles vencidos em cima de um tal
de Real Madrid), o "morreu líder, nasceu campeão", a Arena Palestra, a campanha dos mais de cem gols em 96, o tri da década de 30, o "dá-lhe
porco!", o campeão do século XX... Se tantas glórias e tradições mal cabem nesse planeta, imagine naquela cozinha!
Hoje, ao receber os parabéns, Vittorino tentou disfarçar a surpresa, mas não conseguiu.
- Tinha se esquecido do próprio aniversário, nonno?!!
- Hoje joga o Palestra, cazzo! Só me lembro de coisa importante!
 
Marcio R. Castro é, obviamente, palmeirense.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Atiçando machos selvagens


As palavras têm poder, dizem. Poder de “profetizar”, poder de salvar, numa interpretação, digamos, etéria. E exercem influência sobre a grande massa (a língua é ideológica, não nos esqueçamos). Afinal, vivemos em tempos líquidos em que a informação deixou de ser coisa sólida para se desmanchar no ar, em função da quantidade – em detrimento da qualidade – do que se escreve, se fala e é veiculado pelos meios eletrônicos. As notícias, as opiniões ganham uma amplidão imensurável e uma áurea de “verdade” pura e, portanto, inquestionável, em função da falta de reflexão.
A bela e bem informada atriz Maitê Proença caiu na armadilha das opiniões jogadas ao léu sem qualquer prudência. Em entrevista à coluna de Sonia Racy, do Estadão, Maitê pisou no cocô da vaca e o escremento respingou para todos os lados. Vamos aos fatos.
A entrevista pautou-se pelas polêmicas que sua personagem na novela da Globo – uma balzaquiana devoradora de garotões – estão suscitando. Lá pelas tantas, a entrevistadora dispara: “Já decidiu seu voto? O que acha das atuais opções para a Presidência da República?”. A resposta: “Gosto da Marina e do Serra”. Se a atriz parasse por aí, OK. Todos têm suas preferências políticas e ideológicas. O escorregão aconteceu na sequência. A jornalista perguntou se o feminismo já era ou se as mulheres ainda precisam lutar contra a discriminação. A resposta foi de um infelicidade brutal, digamos até burra. “A mulher ainda é tratada como escrava na África, Ásia, países árabes, na maior parte do planeta. Só no ocidente houve progressos, muitos, mas ainda há discriminação. Quem sabe a própria [discriminação] a calhar nesse momento de eleição, atiçando os machos selvagens e nos salvado da Dilma?”.
Comentário que se equivale àquele famoso do Maluf, o estupra mas não mata!
Tenho dito!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Saudoso samba


Se vivo estivesse, João Rubinato completaria 100 anos na próxima sexta-feira, 6. Reuniria alguns amigos – a maioria octogenários, nonagenários – para uma gelada. Ninguém apagaria velinha, pois com certeza faltaria fôlego. Nossa sorte é que João Rubinato, filho de imigrantes italianos, teimou na vida e virou artista. Criou vários personagens que interpretava em programas de rádio. Um deles, Adoniran Barbosa. Por obra do destino, talvez, imortalizou-se com o nome fictício. João virou Adoniran, ator, cantor, compositor. Escreveu clássicos como Saudosa Maloca, Trem das Onze, Tiro ao álvaro, Samba do Arnesto.
Mas se João Rubinato não ganhará festa, Adoniran, que partiu fora do combinado há quase 28 anos, será comemorado. O Centro Cultural São Paulo preparou uma série de show, entre os dias 7 e 21 de agosto, no Projeto Adoniran 100 anos. Entre os presentes, a impagável Maria Alcina, a ótima Vânia Bastos, Cida Moreira e Passoca (um excelente violeiro), Cauby Peixoto e Maurício Pereira (Os Mulheres Negras). Os espetáculos acontecerão na Sala Adoniran Barbosa – de graça! – e o Centro Cultural fica na rua Vergueiro, 1000, Paraíso (próximo à estação Vergueiro do Metrô). Imperdível!

MARIA ALCINA E VÂNIA BASTOS
Dia 7, 19 horas.

FABIANA COZZA, OSVALDINHO DA CUÍCA E MILENA
Dia 8, 18 horas

CIDA MOREIRA E PASSOCA
Dia 14, 19 horas

CAUBY PEIXOTO, TOBIAS DA VAI-VAI E GRAÇA BRASSA
Dia 15, 18 horas

VIRGÍNIA ROSA, MAURÍCIO PEREIRA E MARKINHOS MOURA
Dia 21, 19 horas

Obs.: os ingressos devem ser retirados com antecedência – começam a ser distribuídos até três dias antes dos shows.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Abre teus olhos


Para aqueles que gostam de samba, falar em Paulinho da Viola é chover no molhado. É um melodista de primeira grandeza. Estava à toa em casa ouvindo rádio quando tocou Mar Grande, de Paulinho e Sérgio Natureza – “Se navegar no vazio/ É mesmo o destino/ Do meu coração/ Parto pra ser esquecido/ Navio perdido/ Na imensidão”.
Descobri que não tinha esta música em nenhum CD do Paulinho que tenho em casa. Queria a letra. Não tive dúvidas. Recorri à minha biblioteca digital, o sr. Google. Achei o sítio oficial do compositor carioca.
Na busca pela letra, percebi uma coisa interessante. Os títulos das músicas – nem todos claro – formavam um diálogo interessante, muitas vezes poético. Foi aí que resolvi fazer uma brincadeira com os títulos das músicas. Ficou interessante, acompanhe:

Abre teus olhos
a gente esquece
amor é assim
aquela felicidade
cadê a razão?
Coisas do mundo, minha nêga.

Depois de tanto amor
é difícil viver assim
feito passarinho
foi demais
jurar com lágrimas
foi um rio que passou em minha vida

Não é assim
não leve a mal
não quero vingança
não quero você assim

O acaso não tem pressa
onde a dor não tem razão...
Perdoa

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Agora vai?


Brasil 3, Costa do Marfim 1. Para os mais otimistas, o Brasil reencontrou o bom futebol, o futebol arte; os pessimistas – ou augorentos de plantão – desdenham do placar e do adversário. Afinal, Costa do Marfim participa de um Mundial pela segunda vez; no anterior, ficou em 19º (se não fosse o pai de santo Google, que não deixa uma consulta sem resposta).
Não sou otimistas, mas tampouco agourento. Gostei da seleção – acho que os jogadores resolveram fazer tudo ao contrário do que o Dunga mandou – e de um jogador em especial: Luís Fabiano. Fez um golaço – usando o braço, sim, o que não tirou o brilho da jogada!
Kaká, que até atuou melhor do que na primeira partida (para alguns analistas, um dos melhores em campo), mostrou ingenuidade. Irritou-se com as porradas que vinha recebendo, mas sequer soube revidar. Deixou claramente o corpo para o jogador de Costa do Marfim trombar nele; tudo que o que o adversário queria. Sei não, Kaká não está em seu melhor momento. O jornalista Juca Kfouri disse na “Folha” que ele vem jogando no sacrifício. É um problema nas próximas fases, em que os jogos são eliminatórios.
Como disse o Nevelli de Almeida, mesmo mal, a seleção brasileira é boa. E assim vamos caminhando. Como não sou otimista e tenho minhas reservas contra Dunga fico com um pé atrás. Só o tempo poderá responder.

Portugal goleia

Portogallo deu show. Fez 7 a 0 na Coreia do Norte, com gols de Simão Sabrosa, Hugo Tiago (2), Raul Meirelles, Liédson – olha ele aí, gente! – e Cristiano Ronaldo. Aliás, será que o craque português desencantou?
Foi um belíssimo resultado, que praticamente garantiu vaga nas oitavas. O resultado tira um pouco o brilho da partida de sexta-feira contra o Brasil. Um empate garante a seleção lusa na próxima fase e garante o primeiro lugar à equipe canarinha.
O Chile venceu mais uma por 1 a 0. Derrubou os suíços. De grão em grão a galinha enche o papo...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Vitória sem encanto


O Brasil finalmente disputou a primeira partida nos gramados da África do Sul. Encarou a inexpressiva Coréia do Norte e decepcionou, apesar de vencer por 2 a 1. Foi uma vitória sem graça, sem tempero, sem encanto. O jogo foi feio, principalmente no primeiro tempo. Time quase amador, a Coréia do Norte plantou-se na defesa, mas o Brasil mostrou pouca criatividade no ataque. Kaká praticamente andou em campo. Robinho – que quer ser o melhor jogador do mundial – fez uma firula e outra; melhorou na etapa final, dando um belo passe para Elano fazer o segundo gol brasileiro.
Não dá para entender o Dunga e sua teimosia. Entendo pouco de futebol nem nunca sonhei ser jogador (sempre fui côncio de minha mediocridade) e muito menos técnico; mas como bom brasileiro, dou meus pitacos. Jogar com dois volantes – Gilberto Silva e Felipe Mello – e um meia pouco criativo, como o Elano, contra a Coréia, que contava com apenas um atacante. É dose. Ainda assim a “melhor defesa do mundo” (segundo alguns jornalistas ufanistas) conseguiu tomar um gol no apagar das luzes.
Luís Fabiano, que é um bom atacante, ficou isolado na frente, trombando com os zagueiros norte-coreanos, fazendo faltas ao invés de tomá-las. Sei não, se o time não melhorar, sofrerá ainda mais com a Costa do Marfim e Portugal – que empataram em 0 a 0, mas fizem um jogo bem melhor que Brasil e Coréia.
Até agora Copa não empolgou
Sei que ainda é muito cedo, pois só tivemos a primeira rodada, mas das 16 partidas disputadas, seis terminaram empatadas e só houve uma goleada: Alemanha 4, Austrália 0. A média de gols por partida é de 1,38, uma das piores da história, sem dúvida. Na Copa da Itália, em 1990, que considero uma das piores de todos os tempos, a média de gols na primeira fase foi de 2,1; em 1994, nos Estados Unidos, 2,08. Em 2002 (Japão e Coréia), a média foi de 2,8 gols por partida.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Piadinha classista

Um homem navegava com seu balão, por um lugar desconhecido. Estava completamente perdido. Foi quando avistou uma pessoa numa estradinha de terra. Reduziu a altitude do balão. Quando estava a 10 metros do chão, gritou:

- Hei, você aí­, aonde eu estou?

Era uma jovem. Ela olhou para o balão e respondeu:
- Você está num balão a aproximadamente 10 m de altura!

Então o homem fez outra pergunta:
- Você é professora, não é?

A moça respondeu:
- Sim...puxa! Como o senhor adivinhou?

E o homem:
- É simples, você me deu uma resposta tecnicamente correta, mas que não me serve para nada...

Então a professora perguntou:
- O senhor é secretário da educação, não é?

E o homem:
- Sou...Como você adivinhou???

E a Professora:
- Simples: o senhor está completamente perdido, não sabe fazer nada e ainda quer colocar a culpa no professor.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O candidato a candidato

Como ando sem tempo – e sem paciência – para pensar e, consequentemente, escrever, e como não posto nada neste humilde espaço, “roubei” um excelente artigo do professor Flávio Aguiar publicado no site da agência Carta Maior. Vale a pena. Vamos ao artigo:
O candidato a candidato

O candidato a candidato, por não ter nada a dizer, precisa das manchetes, para dar a impressão que está dizendo algo. Precisa produzir manchetes a mancheias, para dar a impressão de que está fazendo algo de verdade, quando na verdade não está fazendo muita coisa.
Flávio Aguiar

Não há pior candidato do que aquele que permanece candidato a candidato.

Quem é o candidato a candidato? É aquele que fica buscando sempre, e só isso, estar bem no filme... dos outros.

Normalmente, o candidato a candidato não tem o que dizer. Ou se tem, não pode dizer o que quer dizer, porque não condiz com o filme onde ele quer se dar bem. Então o candidato a candidato cai naquele limbo, onde não tem propriamente compromisso com o que venha a dizer, pois pode dizer qualquer coisa. Muitas vezes isso dá errado, porque nem sempre o que lhe vem a cabeça bate com o que está na cabeça dos outros. Por isso, normalmente o candidato a candidato dá cabeçadas e bate cabeça com a cabeça de muita gente.

O candidato a candidato é assim: redundante. Se descobre que alguma coisa que disse rendeu-lhe algo, mesmo que seja apenas no seu próprio arraial, fica martelando nisso como martelo em cabeça de prego, até achata-lo todo. Por quê? Porque o candidato a candidato precisa ter a certeza de estar mantendo atrás de si os correligionários que já conquistou, de medo de perde-los e com isso, como bote furado, deixar de captar outros, que não irão entrar num esquife que está fazendo água.

E por quê esse porquê? Por que o candidato a candidato, por não ter nada a dizer, precisa das manchetes, para dar a impressão que está dizendo algo. Precisa produzir manchetes a mancheias, para dar a impressão de que está fazendo algo de verdade, quando na verdade não está fazendo muita coisa. Ou se está, é apenas fazendo pouco dos que o ouvem, pois espera que acreditem que ele está fazendo algo importante, quando na verdade não está.

O candidato a candidato precisa de manchetes? Ah, estas são as partes difíceis. Porque então o candidato a candidato precisa de candidatos a mancheteiros que editem as manchetes que seus patrões, os donos dos veículos em que eles trabalham, querem que eles façam, para manchetear as virtudes do candidato a candidato que apóiam.

A dificuldade dessa operação começa porque os mancheteiros não podem por nas manchetes que mancheteiam a verdade sobre o que os donos dos veículos em que eles trabalham, ou seja, aquilo que esses donos querem que o candidato a candidato faça, se ganhar, mas que não querem que ele sequer diga, enquanto permanecer na corrida.

Para não dizer que não falei de pedras, quero dizer, de flores, vamos a alguns exemplos. Não pode sair uma manchete assim: “O nosso candidato, que é o candidato a candidato para vocês, leitores, vai privatizar tudo o que nós queremos e mais ainda”. Não que muitos leitores desses veículos não gostassem dessas candidatas a manchetes que jamais deixarão esse estado de gravidez nunca realizada. Mas é que ela poderia cair nos olhos de outros que não gostarão, e daí ir para a boca do povo, e aí os donos desses veículos começariam a ter urticária, alergia, perebas, essas coisas que lhes assaltam as peles quando ouvem expressões como “a boca do povo”, “a vontade do povo”, “a soberania popular” – ih, essa dá até convulsões em alguns.

Outros exemplos de manchetes que deverão ficar só em pensamento, como aqueles pecados que a gente cometia quando pequenos demais para comete-los por ações:

“Se o nosso candidato ganhar, bloqueará por todos os meios isso de desenvolvimento com consumo popular. Em troca, haverá bônus para todos os investidores no mercado de futuros, presentes e passados, e de secos e molhados”.

“Se o nosso candidato ganhar, Hillary Clinton vai mandar não só no Conselho de Segurança da ONU, como também no Ministério da Defesa do Brasil”.

“Nosso candidato vai isentar de impostos produtos essenciais, como o vinho francês, o uísque escocês, mesmo que seja naturalizado paraguaio, e o chapéu de caubói americano. Para compensar, vai sobretaxar produtos supérfluos, como o arroz com feijão, a caipirinha de cachaça (a de vodka russa, não!) e a tubaína.

E por aí vai.

Mas o problema é que o candidato a candidato é mais duro que carne de pescoço para produzir manchetes. Pobres mancheteiros! Têm chacoalhar mais a cabeça do que parafuso frouxo em espremedor de cana para produzir as desejadas candidatas a manchetes sobre o candidato a candidato! Por que o candidato a candidato, para agradar muitos e muitos sem se comprometer muito, tem que se voltar para minigâncias, nonadas, ninharias, frioleiras, inânias, nicas, nugas, mas sempre dando-se o ar de fazer verdadeiras maravalhas, espetaculosidades, dando sempre a impressão de estar roubando a cena quando na verdade está mesmo é tomando o tempo dos outros.

Então vem essa coleção de candidatas a pérolas de um colar, como se assim fossem preciosidades. “O candidato a candidato foi à missa”. “O candidato a candidato comungou”. “O candidato a candidato puxou uma Ave-Maria”. “O candidato a candidato acha que quem fuma enerva a Deus” (isso foi em outra igreja). “O candidato a candidato colocou o solidéu na cabeça” (isso vai ser em outra). E logo virão as inevitáveis “O candidato a candidato comeu um pastel”, e “O candidato a candidato segurou o feirante – ops – quero dizer – a filha do feirante no colo”.

(Não pensem que eu tenho algo contra ir à missa, comungar, etc. Mas é que no tempo em que eu fazia isso (hoje minha religião é entre eu e Ele, Ele e eu, nós dois numa demanda, nem ele ganha nem eu) aprendi que a gente devia fazer essas coisas com humildade e devoção, por amor do Amor, e não para sair no santinho.).

Mas isso não chega, só isso não ganha eleição. Daí vem outra: "candidato a candidato vai semear ministério no planalto". Opa, isso nào dá muito certo não. Tem gente no campo dele que acha que isso incha o Estado. Daí: "candidato a candidato diz que vai podar secretaria". Essa é fase agrícola. Depois vem a antropológica. Então vêm outras pérolas mais peroladas ainda. Tipo “Candidato a candidato acusa índio de ser o responsável pelo narcotráfico para destruir a nossa juventude”. “Mas é porque ele virou presidente do país vizinho! Mas também é demais, não é?” - pensarão muitos leitores desses veículos, que adoram o candidato a candidato” – “ter um ex-torneiro mecânico de presidente já é uma barra! Ou ter um ex-tupamaro no outro país vizinho. E imaginem então uma lutadora contra a nossa querida ditabranda de outrora chegar a presidência!”.

Como essa do índio rende juros e juras de amor no mercado desses leitores comprometidos com os jornais dos donos de jornal comprometidos com o candidato a candidato, este vai repetindo a dose, para permanecer nas manchetes: e dá-lhe índio responsável pela coca! Ou cúmplice. Ou corpo-mole, já que, para essa mentalidade, é isso mesmo que índio faz desde que Cabral chegou aqui: corpo-mole. “Depois ainda vem dizer que quer apito! Apito coisa nenhuma, índio quer mesmo é se fingir de morto, como dizia aquele excelente general americano”.

Ah, mas isso não chega. Porque ainda assim o candidato a candidato vai caindo e caindo nas pesquisas. Nem assoprando pra cima ele sobe. Então é preciso por-se mãos à obra para “desconstruir” – “destruir” seria melhor, mas as ogivas nucleares estão proibidas em nosso pais – a candidata do outro lado, porque ao contrário do candidato a candidato ela não é uma candidata a candidata, ela é uma candidata, com programa explícito e o escambau.

“Então venha a nós o vosso dossiê! Ela não fabricou um? Nem tentou? Não tem importância”, pensam alguns dos cartolas do candidato a candidato: “Nós fabricamos um para ela”. Quer dizer: “a gente fabrica a história do dossiê, e gruda nela”. “E venham um, dois, três, muitos dossiês!, como dizia aquele general americano que lutou no Vietnã!”.

E por aí a história se vai. Não sabemos ainda o que vai acontecer. Mas uma coisa certa. Mesmo que ganhe a eleição, quem nasceu pra candidato a candidato, jamais chegará a candidato de fato. Porque para isso é preciso estar à altura do Brasil. Só que o Brasil mudou de lugar e de tamanho. E ele nem aí.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O caso Irã - 2

Como está complicado postar uma mensagem aqui. O tempo cada vez mais curto e os compromissos cada vez maiores. A imprensa continua batendo forte no Lula por causa da intervenção do Brasil e da Turquia no caso do Irã. O "Estadão" de hoje traz na manchete: "Hillary aponta 'sérias divergências'com Brasil no caso do Irã". A linha fina: "Secretária americana diz que posição brasileira 'deixa o mundo mais perigoso'".
Dia destes o jornalista Mino Carta -- um dos melhores do País -- escreveu um artigo a respeito. Como concordo com o que ele escreveu, e o texto dele é muitiíssimo melhor que o meu, compartilho-o com os meus três ou quatro leitores:

Os interesses do Império e os nossos

Mino Carta

Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.

Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte.

Para citar eventos recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos.

Não há entidade, instituição, setor, capaz de representar de forma mais eficaz a elite brasileira do que a nossa mídia. Desta nata, creme do creme, ela é, de resto, o rosto explícito. E a elite brasileira fica a cada dia mais anacrônica, como a Igreja do papa Ratzinger. Recusa-se a entender que o tempo passa, ou melhor, galopa. Tudo muda, ainda que nem sempre a galope. No entanto, o partido da mídia nativa insiste nos vezos de antanho, e se arma, compacto, diante daquilo que considera risco comum. Agora, contra a continuidade de Lula por meio de Dilma.

Imaginemos o que teriam estampado os jornalões se na manhã da segunda 17, em lugar de Lula, o presidente FHC tivesse passado por Teerã? Ele, ou, se quiserem, uma neoudenista qualquer? Verifiquem os leitores as reações midiáticas à fala de Marta Suplicy a respeito de Fernando Gabeira, um dos sequestradores do embaixador dos Estados Unidos em 1969. Disse a ex-prefeita de São Paulo: por que só falam da “ex-guerrilheira” Dilma, e não dele, o sequestrador?

A pergunta é cabível, conquanto Gabeira tenha se bandeado para o outro lado enquanto Dilma está longe de se envergonhar do seu passado de resistência à ditadura, disposta a aderir a uma luta armada da qual, de fato, nunca participou ao vivo. Nada disso impede que a chamem de guerrilheira, quando não terrorista. Quanto a Gabeira, Marta não teria lhe atribuído o papel exato que de fato desempenhou, mas no sequestro esteve tão envolvido a ponto de alugar o apartamento onde o sequestrado ficaria aprisionado. E com os demais implicados foi desterrado pela ditadura.

Por que não catalogá-lo, como se faz com Dilma? Ocorre que o candidato ao governo do Rio de Janeiro perpetrou outra adesão. Ficou na oposição a Lula, primeiro alvo antes de sua candidata. Cabe outro pensamento: em qual país do mundo democrático a mídia se afinaria em torno de uma posição única ao atirar contra um único alvo? Só no Brasil, onde os profissionais do jornalismo chamam os patrões de colegas.

Até que ponto o fenômeno atual repete outros tantos do passado, ou, quem sabe, acrescenta uma pedra à construção do monumento? A verificar, no decorrer do período. Vale, contudo, anotar o comportamento dos jornalões em relação às pesquisas eleitorais. Os números do Vox Populi e da Sensus, a exibirem, na melhor das hipóteses para os neoudenistas, um empate técnico entre candidatos, somem das manchetes para ganhar algum modesto recanto das páginas internas.

Recôndito espaço. Ao mesmo tempo Lula, pela enésima vez, é condenado sem apelação ao praticar uma política exterior independente em relação aos interesses do Império. Recomenda-se cuidado: a apelação vitoriosa ameaça vir das urnas.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O caso Irã

O sítio Vi o mundo (www.viomundo.com.br), do Luiz Carlos Azenha, publicou matéria traduzida do jornal britânico The Guardian, sobre o acordo Brasil- Turquia-Irã. Na imprensa local, as análises são pelo negativo da notícia, afirmando que Obama não acredita no acordo etc.

O acordo nuclear Brasil-Irã-Turquia
17/5/2010, Stephen Kinzer, The Guardian, UK
Tradução Caia Fittipaldi
http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2010/may/17/iran-nuclear-brazil-turkey-deal
Os acontecimentos e notícias empolgantes que chegam de Teerã, de acordo afinal firmado, que pode ter evitado crise global em torno do programa nuclear iraniano é desenvolvimento altamente positivo para todos – exceto para os que, em Washington e Telavive, estavam à procura de qualquer pretexto para isolar ou atacar o Irã.
Também marca o nascimento de uma nova força altamente promissora no cenário mundial: a parceria Brasil-Turquia.
Semana passada, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e o presidente Luis Inácio Lula da Silva do Brasil adotaram, em conjunto, a abordagem clássica do “um gentil, outro durão”, para aproximarem-se dos líderes iranianos. Lula anunciou que iria a Teerã, o que deu aos iranianos esperança de algum acordo. Mas era indispensável também a presença da Turquia (onde o urânio será tratado), e Erdogan fez-se de difícil.
Na 3ª-feira, Ahmet Davutoglu, o muito experiente ministro das Relações Estrangeiras da Turquia, anunciou que Erdogan não iria ao Irã, a menos que os iranianos manifestassem algum interesse em firmar algum acordo. “Não é hora para encontros trilaterais sem objetivo preciso”, disse. “Queremos resultados. Sem perspectiva de resultados, não iremos ao Irã.”
Na 6ª-feira, Erdogan endureceu ainda mais. Disse que a planejada viagem a Teerã estava cancelada, porque o Irã “não se manifestara sobre a questão”.
Poucas horas depois, a secretária Hillary Clinton telefonou ao Chanceler turco e empenhou-se em desencorajar a iniciativa dos diplomatas brasileiros e turcos. Porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse que a sra. Clinton ‘alertou’ o ministro turco para não confiar nos iranianos, cujo único interesse seria “fazer qualquer coisa para impedir as sanções pelo Conselho de Segurança, sem dar qualquer passo para suspender seu programa nuclear militar.”
Depois do telefonema, um pouco precipitadamente, de fato, a secretária Hillary previu publicamente que o esforço dos presidentes Lula e Erdogan fracassaria.
O que se sabe hoje é que a secretária Clinton pode não estar trabalhando corretamente pela pauta política da Casa Branca. Enquanto ela falava em Washington, funcionários turcos anunciavam aos jornalistas em Ankara, off-the-record, que haviam recebido encorajamento do próprio presidente Obama, para insistir no trabalho de mediação e continuar pressionando em busca de algum acordo. Pode ser, é claro, ‘divisão’ planejada das forças nos EUA, para cobrir todas as posições, o que implica que EUA, sim, anteviram a possibilidade de serem derrotados no front diplomático: Clinton faria a parte mais difícil e preservaria a posição do presidente como ‘mediador’ e interessado mais em acordos que em confrontos. Seja como for, já sugere alguma fragilidade na posição da secretária de Estado, ou seu isolamento, no círculo mais alto dos estrategistas de Obama para as questões mundiais cruciais.
Alguns, em Washington, tentarão ver no acordo apenas um modo para salvar as aparências e livrar o Irã de confronto direto com EUA e União Europeia. Seja como for, outros verão de outro modo. Ali Akbar Salehi, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, vê perspectiva mais positiva. Semana passada, já havia anunciado que o Irã buscava um acordo, contando com a mediação política do Brasil e da Turquia “para dar aos EUA e outros países ocidentais um modo de escaparem da situação de impasse que criaram, com tantas ameaças.”
Em todos os casos, o que se viu foi que negociadores competentes em negociações bem encaminhadas por dois líderes mundiais, destruíram a versão, difundida por Washington, de que o Irã não faria acordos e teria de ser ‘atacado’, por sanções; antes, claro, de que os EUA considerassem “todas as opções” – inclusive o ataque militar, para impedir o progresso do programa nuclear do país.
Fato é que Turquia e Brasil, embora em pontos opostos do planeta, têm muita coisa em comum. São dois países territorialmente grandes que passaram longos anos sob ditadura, mas conseguiram alterar essa história e andar pacificamente na direção da plena democracia. Os dois países têm hoje, na presidência, políticos dinâmicos e experientes, que comandaram importante processo de recuperação econômica nos seus respectivos países. Os dois países, além do mais, já emergiram como potências regionais, mas aspiram ao nível de potências como Rússia, Índia ou mesmo a China. Nem Turquia nem Brasil podem sobreviver sozinhos entre esses gigantes. Mas, juntos, formam uma parceria que tem inúmeras possibilidades de sucesso.
Brasil e Turquia são os países que mais abriram novas embaixadas pelo mundo, nos dois últimos anos. Uma vez por ano, os principais diplomatas turcos voltam a Ancara para ampla reunião de trabalho. Na reunião de 2010, ocorrida em janeiro, o ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim foi um dos principais conferencistas convidados.
Turquia e Brasil foram, por muitos anos, apoiadores ‘automáticos’ de Washington, mas agora começam a assumir o timão e determinar a própria rota. Preocupados com o que veem como violento unilateralismo norte-americano, que desestabiliza imensas regiões em todo o mundo, os dois países têm evitado todos os confrontos internacionais, ao mesmo tempo em que trabalham incansavelmente para promover acordos que visem à pacificação. Por muito feliz coincidência, os dois países são hoje membros não-permanentes do Conselho de Segurança. A posição deu-lhes os meios para intervir na questão iraniana; que os negociadores e presidentes de Turquia e Irã usaram com talento e competência excepcionais.
Durante a Guerra Fria, o Movimento dos Não-alinhados tentou converter-se numa “terceira força” na política mundial, mas fracassou, porque reunia países grandes demais, separados demais e diferentes demais. Turquia e Brasil emergem agora como a força global capaz e competente para diálogos e acordos que o Movimento dos Não-alinhados jamais antes conseguira ser.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Aos inimigos, a lei!

O velho e bom Maquiavel – o pensador político mais controverso, mas também o mais estudado – ensina em O Príncipe que para manter o poder o governante que conquista um reino tem de fortalecer os fracos, mas na medida em que não representem nenhum perigo, e massacrar seus inimigos. A ética de Maquiavel não é a ética cristã ocidental, mas a ética política, que se encerra em si mesma e depende das circunstâncias. Portanto, a ideia de se massacrar os inimigos para manter-se no poder é perfeitamente aceita. O príncipe, contudo, não deve ser tirânico o tempo todo, e sim ter como objetivo maior promover o bom governo, ou seja, governar para o bem comum.
O ex-inquilino do Palácio dos Bandeirantes e postulante (ainda pré-postulante, como quer a lei) ao cargo político mais alto do País, a presidência da República, certamente leu Maquiavel. Não mede esforços para massacrar aqueles que se colocam em seu caminho.
Não mediu esforços para tentar massacrar o sindicato dos professores – desde 1978, a pedra no sapato de todos os que governaram São Paulo. Contou para tanto com um aliado importante, a imprensa paulista; na verdade, a benevolência das famílias Frias, Mesquita e Marinho.
Numa das assembleias dos professores que aconteceu nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes, quando então o pré-candidato ao Palácio do Alvorada ainda nem era pré, a presidente do sindicato desancou o governador. Disse que teria a espinha dorsal quebrada pelos grevistas. A imprensa, mais do que de pressa, leu o discurso sindical (fazê-lo dobrar-se para que aceitasse negociar com a categoria) com roupagem eleitoreira – prejudicar a candidatura do governador. Ora, como prejudicar a candidatura se à época ela nem existia? Aliás, nem existe ainda perante a lei.
O DEMO-PSDB entrou na Justiça Eleitoral contra o sindicato por “contra-propaganda”. A denúncia foi aceita pela procuradoria-geral da República, que pediu multa de R$ 50 mil contra o sindicato. Na edição de sábado, o “Jornal da Tarde” – do grupo Estadão, que anuncia sofrer censura da Justiça – publicou editorial elogiando a procuradoria e pedindo “multa pesada para enquadrar Apeoesp na lei”. “Atingir finanças do sindicato dos docentes é meio de evitar que sabote a democracia de forma arrogante.” Ora, a democracia pressupõe o conflito de ideias. Só assim ela se consolida. Mas ao que parece, o ex-inquilino do Palácio dos Bandeirantes e seus asseclas (a imprensa paulista à frente) não gostam do confronto de ideia. Colocam-se acima do bem e do mal.
Para o grupo Estado, o sindicato dos professores fez propaganda negativa contra Serra, por isso deve ser punida. Se o raciocínio for nesta linha, também o grupo midiático deveria ser punido, pois esforça-se sobremaneira para fazer propaganda negativa da pré-candidata petista. Aliás, o próprio governo do Estado, que faz propaganda mentirosa na TV. Mostra as novas estações da linha 4 do Metrô, que ainda não estão abertas ao público, como se estivessem em plena atividade. Isto pode!
Aliás, a Lei Eleitoral – que me perdoem os magistrados – é hipócrita. É claro que concordo que tem de se estabelecer regras num pleito tão importante; mas todos sabem que são os candidatos, eles debatem ideias nos jornais e na TV, mas ninguém pode dizer que são candidatos. O TSE deveria preocupar-se em estabelecer regras mais rígidas com relação ao financiamento das campanhas -- porque será que a maior parte dos partidos não quer a reforma política, que previa financiamento público para as campanhas eleitorais? Serra tem feito viagens por todo o País a bordo de um jatinho de um banqueiro. Participou neste final de semana de um ato com evangélicos em Santa Catarina. O evento recebeu R$ 540 mil dos cofres do governo do Estado e da prefeitura de Camboriú. Cada um constrói sua própria ética...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O lado “S” da imprensa

Sem liberdade de imprensa não existe democracia. Em alguns países europeus há jornais ligados a partidos políticos com grande credibilidade. O L'Unità, fundado por Antonio Gramsci, por exemplo, é ligado ao PDS (ex-PCI); há jornais ligados à igreja católica e, consequentemente, à Democracia Cristã. No Brasil os jornais vendem uma imagem de independência – quem não se lembra do anúncio da Folha, “de rabo preso com o leitor”? Só que não respeitam o leitor. Seria normal, por exemplo, a Folha – ou a Rede Globo – anunciar em editorial: “apoiamos a candidatura de Serra”, e fazer uma cobertura isenta. Ao contrário, não assumem quem apoiam e fazem uma cobertura coxa, a partir de denúncias plantadas, de preconceitos criados pelo senso-comum. Vendem ao leitor/telespectador propaganda política por matérias jornalísticas. Pior são alguns jornalistas que querem se passar por isentos, mas andam só dizendo bobagens. Algumas pérolas:
"O PSDB está virando um partido de massa, mas uma massa cheirosa."
Eliane Cantanhêde, da Folha
“Após governo sem brilho em SP, José Serra deve levar a uma disputa mais madura e propositiva pela Presidência do país.”
Editorial da Folha
“(…) esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada.”
Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais-ANJ

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Adestramento tucano


A campanha eleitoral para a presidência da República – que deve ter início no dia 6 de julho – será uma guerra aberta entre PT e PSDB. A elite brasileira não engolirá mais quatro anos de PT no governo. A imprensa tucana de São Paulo já anda desesperada. Festa de lançamento da pré-candidatura de José Serra mereceu manchete no jornal O Estado de S. Paulo no domingo. Com direito a uma foto de Serra beijando Aécio Neves (seria um beijo de Judas?).
A ideia do partido é contrapor os currículos de Serra e Dilma Rousseff, pré-candidata do PT. O que isto significa? Atacar Dilma porque ela foi da Var-Palmares – grupo guerrilheiro – durante a ditadura militar e esconder que Serra fugiu para um auto-exílio no Chile?
O “Estadão” tenta, a todo custo, fazer de Aécio o vice de Serra – a tal chapa “puro-sangue”. Na edição de domingo voltou à carga. Quem conhece o mínimo de política sabe que se Aécio for o vice do Serra estará sepultando seu futuro político. O ex-governador de Minas também sabe disto...
Tucanos amestrados
Deu na edição da revista IstoÉ (edição 2109, de 9 de abril): “Na tentativa de formar uma rede de cabos eleitorais bem preparados para o debate político nas ruas, PSDB cria curso para dar aulas de antipetismo”. Trata-se do programa Comunicar 45. O repórter acompanhou o treinamento de militantes e simpatizantes do Recife (PE). O Comunicar 45 já treinou instrutores em São Paulo, Fortaleza, Espírito Santo, Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Piauí e Maranhão.
O curso é dado por cientistas políticos ligados ao tucanos. De acordo com a reportagem, são fornecidos na aula teórica “atalhos para fugir de temas polêmicos. Por exemplo, se o eleitor mencionar o nome de Lula, o tucano deve reforçar que o debate não é mais entre o presidente petista e FHC. Caso a discussão gire em torno dos programas sociais, o militante deve responder de pronto que foi o PSDB que começou a construir a rede de proteção social do País, com a criação do Bolsa Alimentação, Bolsa Escola e Vale Gás”. E esquecer-se, certamente, que os tucanos – e a elite – são críticos ferrenhos dos programas sociais do PT. E a guerra pelo voto está apenas no começo, como lembra bem a reportagem de IstoÉ.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Tucanos recorrem ao TSE para bicar professores


Tucanos e DEMOS entraram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com uma representação contra a APEOESP, o sindicato dos professores que lecionam no Estado. A alegação? Propaganda antecipada e “contra-propaganda”. Isto porque, numa assembleia, a presidente do sindicato criticou Serra. Desde o início do movimento tanto Serra quanto seu secretário da Educação, Paulo Renato, têm dito que a greve é política. A intenção é descaracterizar o movimento e esconder que nos últimos 14 anos o PSDB, no Estado de São Paulo, tem trocado os pés pelas mãos no que tange à área da Educação Pública, com planos mirabolantes e especialmente pela implantação, de forma atabalhoada e equivocada, do projeto de “promoção automática” – um Frankstein construído a partir de uma experiência espanhola, que transformou-se na prática em aprovação automática.
Os tucanos se acham acima do bem e do mal. Não aceitam críticas. Da mesma forma, no poder exercem a força para ofender seus adversários – e tentar aniquilá-los, claro. No fundo, tentam aniquilar a APEOESP, a pedra no sapato daqueles que ocupam ou ocuparam o Palácio dos Bandeirantes. Também usam a truculência na condução das coisas públicas, pois impõem políticas goela abaixo da população sem consultar ninguém – são auto-suficientes. Sequer atenderam os pedidos de audiência para negociar a pauta de reivindicações dos professores, que há 12 anos acumulam perdas salarias próximas a 30% (pode parecer pouco, mas em período de inflação controlada, é uma corrosão no poder de compra bem razoável).
Grande parte da imprensa paulista – também emissoras de rádio e TV – está usando a fantasia dos ranfastídeos. Só falta usarem como logotipo um tucaninho. Transformaram-se em diário oficial do PSDB. Felizmente há feixes de luz neste cipoal. Jânio de Freitas, colunista da “Folha”, publicou na edição de hoje um artigo coerente, A greve da hora:
“A ideia do PSDB de buscar uma punição judicial para o sindicato dos professores oficiais de São Paulo, por considerar que a greve da classe tem propósitos eleitorais, é um mau começo de campanha para José Serra e os candidatos peessedebistas em geral, no Estado.
“Não é preciso, nem seria sensato, duvidar do componente eleitoral da greve. Por ao menos dois bons motivos, melhor caberia louvar a ocorrência de uma greve também política.
“É legítimo, e da própria definição de sindicato, que participe da vida política com a posição mais conveniente à classe. Inclusive com greves, cuja base legal ou ilegal só à Justiça, e jamais a governos e à polícia, cabe proclamar. (…) No final, importa muito mais é que uma associação de classe se mostre viva, quando todas as associações devedoras da ação política própria da democracia parecem, há tanto tempo, sugadas de toda a sua vitalidade.
“Impedir que sindicatos e congêneres de se manifestar politicamente seria trazer de volta um pedaço de ditadura.”

O sindicato não pode fazer greve política, mas os jornalistas podem fazer propaganda – disfarçada de análise política – na TV. O cineasta travestido de jornalista Arnaldo Jabor é um deles. Leia o que falou ontem, 31, em seu quadro no Jornal da Globo:
A eleição este ano é importante para
atualizar o estado brasileiro

Atenção! Foi dada a partida para mais um páreo. De um lado tucanos bicudos e do outro sapos barbudos. Mas, não é Fla X Flu. Esta eleição é importante para atualizar o estado brasileiro, que precisa assimilar a complexidade do mundo atual.
Temos a mania de achar que o estado tem de ser uma fortaleza, um Deus de onde tudo emana. Dai a importância da democracia que é plural, ampla. Como disse Sérgio Buarque de Holanda: “a democracia no Brasil sempre foi um mal entendido.”
Democracia não é demagogia. É necessidade social. O país é muito amplo para caber em uma cabeça só, em um super estado divino. Isso leva a defeitos conhecidos: populismo, corrupção, política do espetáculo e, claro, autoritarismo.
Eleição não é Corinthians e Palmeiras como acham a CUT e sua líder que usou uma greve para gritar: “vamos quebrar a espinha dorsal do PSDB e do governador.” Isso não é campanha, é terrorismo.
Governar o Brasil não é mandar em tudo. Governar o Brasil não é matar as saúvas como se dizia antigamente. É confiar na sociedade e em seus empreendedores livres.
Por isso, o estado tem de se reformar para ser enxuto, malhado, eficiente e abrir caminhos que fortaleçam a infraestrutura precária e a educação catastrófica, pois, estas são as saúvas de hoje.

terça-feira, 30 de março de 2010

Armando Nogueira


Foi enterrado na tarde desta terça-feira, 30, o corpo do jornalista Armando Nogueira, de 83 anos, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Nogueira morreu na manhã de segunda-feira, vítima de câncer no cérebro.
Formado em Direito, Armando Nogueira iniciou no jornalismo nos anos 50, no Diário Carioca. Passou pelas revistas Manchete e Cruzeiro, pelo Jornal do Brasil e foi diretor de jornalismo na Rede Globo. Armando tinha um texto brilhante, e era um dos cronistas esportivos pelo qual tinha uma grande admiração e respeito.
Armando Nogueira ganhou notoriedade ao dar um grande “furo” (na linguagem jornalística, publicar uma notícia exclusiva) no caso do atentado da rua Tonelero, no Rio de Janeiro. O empresário da comunicação Carlos Lacerda (um dos articuladores do golpe de 1964) sofrera um atentado, no qual faleceu o major da Aeronáutica Rubens Vaz. O crime teria sido planejado pelo chefe de segurança do então presidente Getúlio Vargas, Gregório Fortunato, também conhecido por “Anjo Negro”. Um dos seguranças de Getúlio, Alcino João do Nascimento foi apontado como o autor dos disparos.
Nogueira havia deixado a redação do Diário Carioca minutos antes e estava num bar nas proximidades, tomando café. Foi testemunha ocular e ligou para a redação. Foi um grande jornalista, sem dúvida.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Eva e a maçã


Não foi fácil não. No começo, Eva não queria comer a fruta.
- Come – disse a serpente astuta – e serás como os anjos.
- Não, respondeu Eva, virando o rosto para o lado.
- Terás o conhecimento do bem e do mal, insistiu a víbora.
Ainda não convencida, Eva cruzou os braços, encarou a serpente, e vaticinou:
- NÃO
Sem se deixar vencer pelas negações insistentes de Eva, a serpente insistiu mais um pouco na sedução:
- Serás imoral!
- Não...
- Serás como Deus!
- Não e não, já disse.

Eva realmente estava resoluta. Não movia um tiquinho sua opinião. Mulher determinada, esta. Mas a serpente era mais arguta. Ficou em silêncio por alguns minutos, pensando como seduzir aquela mulher teimosa. Jogou a última cartada:
- Come, boba, emagrece.
Foi tiro e queda.

terça-feira, 16 de março de 2010

A greve, o governo e os jornais


Há tempos não apareço neste espaço, nem sei mais se tenho algum leitor. Como alguns sabem, sou funcionário do Sindicato dos Professores (APEOESP) e eles estão em greve. Portanto, o trabalho, neste período, quadruplica.
Quero aproveitar para falar um pouco da greve. Como tenho lado nesta história, alerto os leitores que posso cometer excessos.
A APEOESP tem tomado pau de tudo o que é lado. A imprensa paulista, claramente favorável a José Serra, tem tido um papel lamentável na cobertura da greve. As matérias são todas editorializadas; os repórteres “compram” as informações oficiais sem sequer desconfiar da fonte – um bom jornalista tem sempre que se perguntar: por que este cara está mentindo para mim? Mas eles só desconfiam do sindicato. O governo usa a estratégia de dizer que a greve atinge 1% da categoria. Vira lei. Agora, o discurso é que a greve é política, contraponto PT e PSDB. É claro que a greve é política. Não quero, nestas curtas e tortas linhas exaurir o conceito de política, mesmo porque o termo daria uma tese de mil páginas, ou um curso universitário inteiro. Mas só para esclarecer, tendo como bengala o Dicionário de Política organizado pelo italiano Norberto Bobbio, o termo política deriva-se do adjetivo “originado de pólis (politikós), que significa tudo o que se refere à cidade e, conseqüentemente, o que é urbano, civil, público, e até mesmo sociável e social (…). O conceito de Política, entendida como forma de atividade ou de práxis humana, está estreitamente ligado ao de poder. Este tem sido tradicionalmente definido como 'consistente nos meios adequados à obtenção de qualquer vantagem' (Hobbes) ou, analogamente, como conjunto dos meios que 'permitem alcançar os efeitos desejados' (Russell).” Ou seja, há uma disputa de poder entre o governo e o sindicato. Portanto, toda greve é política, é uma briga de classes.
O governo mente, também, quando fala em salários. Diz que há professores que ganham R$ 6 mil por mês. Esconde que este salário é pago a um supervisor de ensino (cargo acima de diretor de escola) em fim de carreira. Sei o quanto os professores ganham mal. Minha esposa está para se aposentar como professora do Estado. Seu salário é ridículo pelo tempo que tem de casa, mesmo com todos os benefícios.
Além da imprensa ao seu lado, o governo conta com milhões de reais para gastar com propagandas nos meios de comunicação. Mente descaradamente. E, infelizmente, a população, mal formada e mal informada, compra as mentiras como verdades.
A luta é inglória. De um lado, Serra e seus asseclas com um exército praticamente invencível formado por golias; de outro, os professores, um David sem funda e sem pedras.
Estado mais rico da Federação, São Paulo paga a seus professores menos que seus colegas do Acre, de Roraima, de Alagoas, de Tocantins, do Mato Grosso, do Espírito Santo. O Acre paga, por hora-aula, R$ 11,17; Roraima, R$ 10,23; Alagoas; Tocantins, R$ 10,10. O professor paulista que leciona da 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio (antigo colegial) recebe por hora-aula R$ 7,58. O professor da 1ª a 4ª séries, R$ 6,55. Agora pergunto, a greve é partidária?